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Anotações de História Naval
1. As civilizações marítimas da Antiguidade.
                                                                                                     Professor Adalberto da S. Brito






                                        




Não se sabe ao certo quando os homens começaram a usar redes para pesca ou barcos.
Vestígios encontrados em sítios arqueológicos indicam que no
Paleolítico os rios e os mares se constituíram uma fonte importantíssima de alimentos.
Os moluscos foram, pela facilidade da sua captura, os primeiros a fazerem parte da dieta dos nossos ancestrais. A pesca era uma atividade vital para a subsistência dos povos.
.Primitivamente empregavam, para pescar, pedras, pedaços de pau afiados e até mesmo as mãos. Pescavam nas margens e baixios dos rios ou na arrebentação.
Em sítios arqueológicos, no litoral catarinense, se encontraram, além de espinhas de peixe, ossos de mamíferos marinhos como botos.
A maioria das
comunidades neolíticas  já dispõem de instrumentos de pesca como anzóis, arpões, redes e canoas. No início do Neolítico, por volta de 10000 a.C., eram feitos com ossos. Com o surgimento da metalurgia, cerca de 5000 a.C., passam a ser  feitos com cobre.

É provável que alguns dos nossos ancestrais tenham acidentalmente  se agarrado a troncos de árvores, carregados pela corrente de um rio e constatado a possibilidade de com eles se locomoverem para locais distantes e até o mar. Certamente depois de um longo aprendizado, por ensaio e erro, construíram as
primeiras embarcações.
Não sabemos quando foram construídas as primeiras 
plataformas flutuantes (jangadas, barcos).
Sabemos que entre 4000 a.C. e 1000 a.C., os polinésios já navegavam pelo Oceano Pacífico. Estes povos desenvolveram apuradas técnicas de navegação e conhecimentos que lhes permitiram atingir as mais distantes das suas numerosas ilhas.
As técnicas e materiais empregados na construção de jangadas e barcos foram extremamente diversificadas. Encontramos barcos construídos de madeira, couro, papiro e junco, dependendo da abundância de determinado material no local onde viviam os marinheiros. Os
egípcios construíram imensos barcos de transporte e mesmo naves de guerra, com papiro, vegetação abundante nas margens do Nilo. Os assírios empregaram sacos de couro (odres) cheios de ar, atados uns aos outros, para transportar soldados a cavalo e cargas pesadas.

A primeira civilização  surgiu possivelmente na Mesopotâmia, território que hoje corresponde ao Iraque e parte da Turquia. Embora alguns autores acreditem terem sido os hieróglifos egípcios criados anteriormente, provavelmente foram os
Sumérios, que viviam ao sul daquela região, os primeiros a ter uma escrita.
Não é possível saber se foram egípcios ou mesopotâmicos  os inventores dos
primeiros barcos.
Em esculturas e pinturas de ambos os povos, por volta do quarto milênio, encontramos representações de barcos e em artefatos do IV século antes de Cristo, aparecem barcos à vela o que nos leva a concluir que o desenvolvimento náutico de ambos os povos ocorreu à mesma época.
Para a maioria dos povos da Antigüidade,  a procura de  matérias primas e mercados foram os fatores determinantes do desenvolvimento da navegação. 
As primeiras civilizações foram
potâmicas, isto é, dependentes dos rios. Surgiram em regiões desérticas, que os rios transformavam em oásis. Em virtude da existência de água, peixes, vegetação ribeirinha e caça, os rios atraíram povos nômades e as condições favoráveis de sobrevivência permitiram a fixação às suas margens. Em volta dos grandes rios começaram as práticas agrícolas e a humanidade chegou ao processo civilizatório.
As cheias dos rios, inundando as planícies, permitiram abundantes colheitas e a formação de excedentes. As civilizações mais antigas que conhecemos foram dádivas dos rios. Surgiram às margens do Tigre e Eufrates (Mesopotâmia) e Nilo no ocidente e Ganges, Bramaputra, Amarelo e Azul no Oriente.
O desenvolvimento destas sociedades vai implicar na sofisticação cada vez maior do consumo. Produtos como madeiras, tecidos, perfumes e temperos passarão a ter grande procura. Se em alguns lugares havia abundância de madeiras, em outros era escassa, o mesmo pode se dizer de outros materiais de construção, fibras e metais que precisam ser comprados em outras regiões, muitas vezes, distantes.
As necessidades do comércio e o transporte de pedras para construção, fizeram surgir uma ativa
navegação no rio Nilo. A falta de madeira e pedras impulsionaram os navegadores dos rios da Mesopotâmia. O crescimento do comércio foi o grande responsável pelo desenvolvimento das técnicas de construção de barcos e navegação.
Da navegação fluvial passaram estes povos para a
navegação marítima.
Foi assim o comércio o primeiro grande impulsionador da navegação mercante e a defesa das frotas mercantes a causa do surgimento das
marinhas de guerra.
Os primeiros
navios mercantes eram, ao mesmo tempo, navios de combate.
Eram grandes, de calado alto, próprios para o transporte de mercadorias e impulsionados a vela. Para a defesa eram embarcados soldados. Por suas características tinham pouca mobilidade e velocidade. Tornavam-se presa fácil dos ladrões do mar.
Não tardou para que surgissem os
navios de guerra. Eram menores, de calado baixo e movidos a força dos remos.

Creta foi, no período entre 3500 a.C. e 1200 a.C. a grande potência naval do Mar Mediterrâneo, a primeira talassocracia. A expressão talassocracia significa poder, domínio do mar.
Na Antiga Creta os homens do mar eram os mais ricos e influentes, o comércio marítimo a principal atividade econômica. "A abundância da pesca compensava ali a aspereza do solo. Um clima puro aclarava os horizontes e permitia-lhes não mais tirar os olhos do mar por onde tinham vindo; costas múltiplas pontilhavam de escalas suas viagens e ventos alternados, fáceis de conhecer, [...] os cretenses espalharam pela bacia oriental os seus punhais esculpidos, suas jóias e seus vasos" [...].
Os cretenses, cuja civilização também é chamada de Egeana, foram essencialmente comerciantes.
O relevo e a falta de terras férteis determinaram a sua  vocação marítima. Exportavam vinho, cerâmica e tecidos e importavam metais, mármore, marfim e vidro. "[...]Minos  [...] adquiriu uma frota. Submeteu numa grande extensão, o mar que hoje pertence aos gregos; foi o senhor das Cícladas e o primeiro colonizador da maior parte destas ilhas (...). Abateu, quanto pôde, a pirataria a fim de assegurar mais facilmente a coleta de impostos." 
A área de comércio Minóico abrangia o Mar Egeu, a ilha de Chipre, a Síria e o Egito. Provavelmente por volta de 1400 a.C., a sociedade cretense foi subjugada pelos Aqueus, que se haviam estabelecido em Micenas e outras cidades, na Grécia Continental.(...). 
Com a invasão dos Aqueus nasceu a sociedade aqueana ou micênica, que predominou na Grécia até cerca de 1100 a.C. , foi influenciada pelos cretenses de quem aprenderam a navegação, as técnicas agrícolas e a escrita.
Os cretenses, aqueus e outros povos que invadiram a região, formarão o povo e a cultura grega.

Os cretenses foram sucedidos pelos
fenícios. Entre 1200 e 600 antes de Cristo, estes navegadores dominaram as rotas do Mar Mediterrâneo. Suas cidades se tornaram os mais importantes entrepostos comerciais daquele tempo. Há indícios de que se aventuram bem longe, teriam chegado às Ilhas Britânicas e feito, a serviço dos egípcios, a primeira viagem de circunavegação da África.
O povo Fenício  é de origem semita .  Suas Cidades-Estados, as principais foram Biblos, Ugarit, Sidon e Tiros,  estabeleceram colônias no litoral do Mar Mediterrâneo, nas costas da África e no sul do continente europeu.
No território fenício as terras disponíveis para o cultivo eram escassas, mas no litoral, havia enseadas e portos naturais e nas montanhas, uma floresta de cedro, madeira de excelente qualidade para a construção naval.
Exportavam o cedro e outros produtos do seu artesanato, como tecidos, púrpura e vidro, para a Mesopotâmia, Egito e numerosos outros lugares.
"Servidos como eram, por uma situação geográfica que lhes fornecia portos seguros, pela natureza do seu território onde, sobre altas montanhas cresciam vastas florestas de madeiras de construção, as suas frotas cortavam em todos os sentidos os mares, traziam ao porto abundantes espécies de produções as mais diversas e faziam as cidades fenícias o empório do comércio dos povos circunvizinhos".
Os fenícios construíram grandes navios de guerra, para a defesa de sua frota mercante e os dotaram de um formidável equipamento de combate, o esporão (aríete).
"Foram construídos [...] navios de guerra mais longos, estreitos e rápidos, providos de remos, com reforçada proa para cravar com força o esporão de bronze (rostrum), no costado do navio inimigo e retirá-lo rapidamente a fim de que a água penetrasse pela abertura".   

Até então, não obstante os povos marítimos tivessem  navios de guerra, suas frotas só eram empregadas no
combate à pirataria ou, quando muito, na defesa de cidades e entrepostos comerciais. Há registros, muito antigos, da utilização de barcos de guerra egípcios para a expulsão de povos, a quem chamavam de bárbaros, que haviam invadido o seu território.
Os povos não tinham uma
estratégia marítima. Suas forças militares, armas e equipamentos eram terrestres, empregando-se eventualmente  meios náuticos  para a passagem de tropas e cargas,  de um lado a outro de um lago, rio ou baia.

Foi
Atenas, a cidade grega, a primeira potência marítima  que ostentou uma organização militar, com uma esquadra aprestada para a guerra. 
Na Antigüidade as cidades gregas eram independentes umas das outras, com economia e governo próprios, só tinham em comum o passado histórico, a língua e a religião. Eram Cidades-Estados (que os gregos chamavam Polis). As principais foram Atenas e Esparta.
Atenas era uma cidade litorânea, que vivia do comércio. Foi, durante muitos séculos, rica e poderosa.
Os gregos atiraram-se ao mar em busca de alimentos.
Como os equipamentos que dispunham eram muito precários, o velame muito frágil e a propulsão a remo, a navegação era muito limitada, só podiam vencer pequenos percursos. Não dispondo de meios de orientação, só podiam navegar de dia e com bom tempo. Desta maneira surgiram centenas de escalas. Com o tempo, em torno dos portos apareceram cidades, transformadas em colônias, no litoral sul da Itália, Sicília (Magna Grécia), França (Marselha) e, principalmente, na Ásia Menor. 
Estas colônias eram ligadas às cidades que as tinham fundado e com elas mantinham lucrativo comércio.
"Robustos navios de carga desembarcam na Ásia Menor suas 250 toneladas de mercadorias em cais divididos em atracadouros, protegidos das vagas do mar alto por diques e quebra - mares, circundados por cidades comerciantes com suas lojas e entrepostos".
O comércio enriqueceu a maioria das cidades gregas, principalmente Atenas e aumentou a rivalidade entre elas. "[...] Atenas disputava com Egina, que transbordava de escravos [...]. Esparta reinava no Peloponeso. Tebas dominava a Beócia e invejava a Ática"   .
Foi o
poder naval ateniense que possibilitou aos gregos a vitória contra os persas.
A planície do Irã foi povoada a partir de 1500 a.C., por diversos grupos, entre eles os medos e parsas (persas). Os medos dominaram os parsas até 558 a.C, quando Ciro os derrotou e uniu os dois povos. Excelente estrategista formou um Império que compreendia o Irã e a Mesopotâmia.
Câmbises, seu filho, estendeu os domínios persas até o Egito.
Dario I, o Grande, sucedeu Câmbises e planejou dominar o mundo.
Inicialmente a expansão persa, de certa forma, beneficiou os comerciantes gregos da Ásia Menor, mas quando os persas conquistaram a Fenícia passaram a usar os barcos e comerciantes fenícios para o seu comércio. "O expansionismo conduzido pela aristocracia persa beneficiava os comerciantes gregos da Ásia Menor, abria-lhes um amplo campo comercial. Entretanto o favorecimento dos mercadores fenícios, em detrimento dos gregos, realizado por Dario I, provocou um movimento de reação"  .  A partir deste momento os persas, em expansão, se tornaram uma ameaça aos atenienses. Os gregos foram levados para o mar pela carência de alimentos. Atenas precisava, a qualquer custo, garantir a proteção de suas rotas de comércio. Não produzia mais que um terço do trigo que necessitava para alimentar sua população.
Em 499 a.C., a cidade de Mileto liderou uma revolta das cidades da Jônia  contra os Persas. Em 494 a.C., a frota fenícia (aliada aos persas) derrotou os revoltosos.
Em 492 a.C., uma grande expedição naval, comandada por Mardônio  tentou invadir o território grego. Violentas tempestades destruíram a esquadra persa.
O avanço de Dario na Trácia  e a conquista da cidade grega de Egina, forçou os atenienses a reagir.
O primeiro choque se deu em 490 a.C.. Os atenienses, sob o comando de Milcíades, enfrentaram o exército persa na famosa Batalha de Maratona. Os persas voltaram aos seus navios e bateram em retirada. Começavam as guerras conhecidas como
Guerras Greco-Pérsicas (Guerras Médicas).
Em 480 a.C., o novo governante persa, Xerxes , fez outra tentativa de conquistar o território grego. Imensas forças navais e terrestres invadiram o Peloponeso. Conseguiram derrotar os espartanos, comandados por Leônidas, no Desfiladeiro das Termópilas, mas foram vencidas pela esquadra grega, sob o comando do ateniense Temístocles, na
Batalha de Salamina .
A poderosa Atenas experimentou, com suas conquistas marítimas e a vitória sobre os persas, seu momento mais importante na história da Grécia. Teve um grande desenvolvimento econômico do qual resultou uma época de esplendor cultural. Deste momento, muito herdamos.
Enquanto as cidades gregas dominavam o mundo estava nascendo uma nova potência.
No século VIII a.C., no vale do Lácio na Península Itálica, nasceu a pequenina
Roma que se tornou, com o tempo, a maior potência do mundo antigo.
As primeiras vitórias romanas se conquistaram em terra.
Roma teve um exército notável. Longe do mar, não tinha tradição, navios mercantes, nem mesmo remadores ou marinheiros.
Tornou-se uma potência marítima para enfrentar
Cartago.
Cartago era uma antiga cidade fenícia do norte da África.
Seus marinheiros fundaram colônias em todo o Mediterrâneo Ocidental e na Sicília, ilha ao sul da Itália.
Sendo um povo de navegadores, os cartagineses tinham uma poderosa frota.
"Cartago proibia aos marinheiros estrangeiros os percursos da Sardenha à Espanha e da Cirenaica às costas oeste da Sicília; rechaçava violentamente a pirataria; quando os cartagineses surpreendiam outros navios corriam-nos. O Mediterrâneo seria um mar cartaginês [...]".
Roma, antes de enfrentar Cartago, dominou as colônias gregas do sul da Itália (Magna Grécia).
Para enfrentar Cartago, construiu uma grande marinha que se tornaria a mais poderosa do mundo.
Os navios romanos eram, quase sempre, cópias dos navios cartagineses, adaptados e construídos pelos artesãos gregos da Magna Grécia.
Eram compridos, de baixo calado, movidos a remo e muito instáveis. Transportavam além dos marinheiros, uma tropa de legionários e o corvus, uma espécie de ponte móvel ligada ao mastro. Quando chegavam bem perto, essa ponte era lançada ao convés do adversário. Por baixo da ponte havia um esporão de ferro que penetrava no casco mantendo os dois barcos unidos. Passando pela ponte os soldados romanos invadiam a embarcação inimiga.
Romanos e cartagineses enfrentaram-se em três guerras chamadas
Guerras Púnicas. A Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.) foi travada pela posse da Sicília. Os romanos construíram uma grande frota, para invadir Cartago, mas uma terrível tempestade destruiu  250 dos seus  navios. Mais duas frotas foram construídas até que, em 256 a.C venceram a marinha cartaginesa e conquistaram a Sicília.
Entre 218 e 201a.C, ocorreu a Segunda Guerra Púnica. Aníbal, um general cartaginês, organizou um exército com 40.000 homens, uma cavalaria e elefantes. Atravessou o estreito de Gibraltar, cruzou a Espanha e os Alpes. Queria atacar Roma pela retaguarda. O frio, a exaustão e as avalanches detiveram um terço do seu exército. Apesar disto, Aníbal venceu duas legiões romanas no lago Trasimeno e em Canas (216 a.C.). Enquanto Aníbal enfrentava os romanos na Itália, o general romano Cipião derrotava os cartagineses na Espanha. Em seguida invadiu o norte da África e atacou Cartago. Aníbal viu-se obrigado a voltar para defender sua cidade, mas foi derrotado por Cipião, em 202 a.C, na batalha de Zama.
Cinqüenta anos mais tarde os romanos empreenderam a Terceira Guerra contra Cartago. Depois de três anos de lutas destruíram a cidade e fizeram 40.000 escravos.
A vitória contra Cartago marcou o início da grande expansão romana. A marinha teve um importante papel nessa expansão. A partir de Otaviano (Otávio Augusto) passaram a ter uma esquadra permanente com cerca de setecentos navios, com bases na Itália e no Adriático, permitindo o comércio entre a Itália e o resto do mundo, a proteção das províncias e as grandes expedições de conquista da época Imperial.
A marinha romana assegurava tal controle do Mar Mediterrâneo que os romanos o chamavam de Mare Nostrum (o nosso mar).

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Referências bibliográficas.

BRAVO, M. Pinto. Curso de História Naval. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da  Marinha, 1959.

BRITO, Adalberto . Textos de História Naval. Florianópolis: Editora Saint Germain, 2003.

DIAS, João M. Alveirinho. A conquista do planeta azul. O início do reconhecimento       do oceano e do mundo. Faro: Universidade do Algarves, 2004.

RENARD, André. A prodigiosa História da Humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964.
Crônica da ventura portuguesa de conquistar os mares

"(D_us) Teria infundido nos portugueses um impulso incontrolável para lançar-se ao mar em busca de novas terras e nações. Com entusiasmo, marinheiros, soldados e missionários partiam de Lisboa, conduzindo a luz do evangelho às terras distantes que permaneciam na escuridão por desconhecerem a mensagem de Cristo."
(MURARO, Valmir Francisco. Padre Antonio Vieira: retórica e utopia. Florianópolis: Insular, 2003.)

Serão céticos, sábios, endinheirados, empreendedores, cobiçosos e irados que fazem a história, ou aqueles que buscam além das montanhas, mares e nuvens, a esperança de que seus sonhos não são quimeras?

A Europa, no início do século XV quando os portugueses deram início à sua busca por pimenta, império e sonhos, era uma verdadeira colcha de retalhos.
Os conflitos armados entre os estados europeus eram constantes e pairava sobre todos a ameaça do Islã.
Em 1415, quando o reino lusitano empreendeu a conquista de Ceuta, os turcos se acercavam da Europa Oriental e os mouros ainda dominavam grande parte da Península Ibérica.
Na conquista de Ceuta, embora sejam claros os interesses comerciais pois a cidade era um entreposto de especiarias, vibrava o fervor religioso. Muito embora, tudo leva a crer,  os mercadores buscassem os lucros do domínio das rotas orientais e o rei a glória de por os pés na África, os marinheiros e soldados reviviam, guiados pelos sermões dos padres, o espírito dos Cruzados, a luta contra os inimigos da cristandade.
Por que os cristãos odiavam os mouros e judeus e os mouros e judeus odiavam os cristãos?
Sob o domínio islâmico, a Península Ibérica, viveu séculos de pacífica convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos. Embora  determinadas atividades fossem proibidas aos infiéis (cristãos e judeus), podiam circular livremente, comprar, vender, ensinar e estudar.
Muito aprenderam com os árabes. A matemática, geometria e astronomia trazida pelos povos do levante foram de muita serventia, mais tarde, quando os ibéricos se atiraram ao Atlântico em busca das Índias.
Um amálgama de ambições pessoais, fanatismo religioso e interesses econômicos dos reis cristãos, clérigos e nobres que deles se acercavam, conspiraram para que não cessasse a matança enquanto não caísse  o último mouro de Granada.
Nos púlpitos e praças, nas cidades e nos campos, pregadores insuflaram a multidão contra muçulmanos e marranos.
Diziam seguir os ensinamentos de nosso senhor Jesus Cristo, que a todos deviam inspirar, sob pena de serem amaldiçoados "Venham sobre eles todas as maldições e pragas do Egito, que vieram sobre o Rei Faraó e sua gente, porque não obedeceram à lei de Deus. Sejam malditos nos povoados e no campo, onde quer que estejam, e no comer e beber,e no velar, dormir, viver e morrer. Os frutos de suas terras sejam malditos e os animais que possuem. Envie-lhes Deus fome e pestilência que os consuma. De seus inimigos sejam repreendidos e a todos aborreçam. O diabo esteja sempre à sua mão direita. Quando forem a juízo saiam condenados. Sejam privados e retirados de suas moradas e bens e seus inimigos as tomem e possuam e em tudo prevaleçam contra eles, e fiquem órfãos, pobres e mendicantes, que ninguém os queira acolher nem socorrer em suas necessidades"( GARCÍA, M. A. F. - Criterios inquisitoriales para detectar al marrano: los criptojudíos enAndalucía en el siglo XVI, in Judíos, Sefarditas, Conversos - la expulsión de 1492 y sus consecuencias, Ángel Alcalá (ed.). Madri: Ed. Ámbito, pp. 478-504, 1995).
Quando os seguidores de Maomé desejaram escapar das terras inóspitas e escaldantes do deserto, onde os recursos, água e alimentos  eram escassos, também usaram o sagrado para unir o povo para a sua conquista.
Não alardeavam seus desejos impuros de conquistar as ricas terras do Ocidente. Cumpriam as suas escrituras, foram ordenados pelo Altíssimo a expandir o Islã, combater os infiéis. (190) Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores. (191) Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos. (ALCORÃO, Al Fatiha, suratas 190 e 191).
Morrer por Alá era a suprema glória. Aguardavam o guerreiro as delícias do paraíso, uma terra encantada, com rios de mel e o amor de virgens.
A cobiça dos homens mascarada em nome de D_us.
O mesmo D_us dos Israelitas que, por suas crenças,  passaram grande parte da História correndo de reino em reino. Compravamà um pouco de paz aqui, alguma tranqüilidade ali. Não muita. Em qualquer manhã de sábado podiam ter a sinagoga incendiada, as filhas e mulheres violentadas, seus bens confiscados ou roubados. Fazer queixa para quem? Para o papa?
Seus antepassados tinham matado Jesus. Serem surrados, maltratados e espoliados era, segundo muitos cristãos, tudo o que mereciam.
Não podiam ter terras, dedicavam-se ao comércio. Preferiam coisas leves e valiosas que pudessem ser carregadas rapidamente, pois não sabiam se amanhã estariam na mesma cidade. Lidavam com ouro, diamantes, moedas, jóias. Valores móveis desprezados por muitos cristãos para quem o trabalho da terra era o único aceitável.
Estudavam. Eram o povo do livro. O amor à Torah, à tradição e à família, os manteve juntos.
Entre eles surgiram notáveis Matemáticos, Astrônomos, Médicos e financistas. Quando os governantes de Castela e Aragão confiscaram seus bens e os expulsaram, muitos foram para Portugal, outros para os países Baixos, em busca de paz. Não por muito tempo.
"Quando Torquemada exigiu que os judeus se convertessem ao cristianismo ou deixassem a Espanha, o brilhante judeu Abraham Zacuto deixou a Universidade de Salamanca e foi recebido de braços abertos em Portugal, onde já estava o seu discípulo José Vizinho. Eles traduziram para o português o Almanaque Perpétuo, que era uma tabela de declinações escrita em hebreu por Zacuto. Esta tabela é básica para determinar a latitude" (ALVIM, Aldo. Letras em Marcha, maio-junho de 1998).

Naqueles tempos terríveis, em meio às guerras e perseguições, algumas cidades armadas viviam em paz.
"O ar das cidades liberta, como alguém bem disse à época.
A rainha era Veneza. Conseguira estabelecer rotas seguras de comércio com os árabes e abastecia a Europa de artigos do oriente. O Dodge de Veneza cobria-se de ouro. "Senhores, graças à paz a nossa cidade investe um capital de 10 milhões de ducados através do mundo inteiro, em parte por meio de naves, em parte por meio de galés e outros navios de tal maneira que daí retiramos um benefício de 2 milhões de ducados com a exportação e de outros 2 milhões com a importação para Veneza, ou seja, 4 milhões no total. Temos a navegar três mil embarcações de dez a duzentas ânforas, tripuladas por 17 mil marinheiros. Temos 300 naves, tripuladas por 4000 marinheiros. Pequenas ou grandes galeras navegam por ano, com 11 mil marinheiros. Felizes vós e nossos filhos! Vistes a nossa cidade cunhar cada ano um milhão e duzentos mil ducados de ouro, oitocentos mil ducados de prata." (SANUTO, Marino. Vida dos duques de Veneza. Apud AMADO Janaína, Leonidas Franco Garcia. Navegar é preciso. São Paulo: Atual, 1989).
Na  Europa cinza e malcheirosa, os panos de cores, perfumes e temperos que  seus barcos traziam, alcançavam alto  preço em todos os mercados.
Com salamaleques nas segundas e canhões na terça, garantiam um suprimento constante daqueles artigos valiosos. No negócio da pimenta Deus não se metia. Cristãos, os venezianos esqueciam as rezas quando se tratava de ganhar dinheiro.
O pequeno reino lusitano não tinha poderosas frotas de comércio como Veneza, mas há muito expulsara os mouros do seu território, vivia em paz.
Pobre de terras e colheitas,  tinha no mar mais que um adorno que a natureza lhe dera. Das suas águas tirava o sustento.
Seus pescadores iam, cada vez mais longe, enfrentando os perigos do oceano.
Seus comerciantes traficavam com sal, peixe seco e muitas vezes com artigos do levante que lhes entregavam os italianos para que levassem ao norte, quando as rotas por terra eram assaltadas por guerras ou pestes.
Seus reis e príncipes, embora ostentassem títulos e heráldicas dos tempos de antanho, quando seus avós lutaram para arrebatar o reino dos inimigos, não se incomodavam em conviver com árabes, judeus ou quem quer que seja, desde que lhes ajudassem a encher suas arcas de ouro. Acolhiam com bom grado marinheiros, mercadores, cientistas, aventureiros e lunáticos e não lhes perguntavam de onde vinham.
Tudo fizeram para estimular os que empreendiam navegações e expedições comerciais.. Plantaram pinho(para a construção de embarcações), distribuíram honrarias.
Os esforços dos reis e empreendores portugueses se faziam numa época em que o mundo começava a mudar e grande ajuda tiveram com a chegada ao reino de valiosos conhecimentos e  instrumentos  como  a bússola e o astrolábio.
Os judeus expulsos de Castela trouxeram a ciência das cartas e tábuas matemáticas.
Lançaram-se ao mar as caravelas "de trinta metros de comprido, alta para fender as ondas, arqueação para gente, mantimentos e carga, a seis milhas ou dez quilômetros à hora, graças ao vento nas velas. Os portugueses inventaram o duplo aparelho: velas quadradas para o vento de popa, velas latinas para o barlavento." (RAPARAZ, Gonzalo. Historia de la colonizacion). Pequeno barco que traçou nas águas um grande destino.
Com ciência e embarcações apropriadas foram os lusitanos, por mares nunca dantes navegados (Camões, Os Lusíadas) em busca do Oriente e de suas propaladas riquezas.
Por setenta e três anos percorreram as costas da África.
Buscando seu destino chegaram aos Açores, à Madeira, Cabo Verde e finalmente ao Cabo da Boa Esperança.
O Atlântico virou palco das disputas do continente.
Castelhanos e lusitanos brigaram pela posse das Canárias e quando Cristóvão Colombo, a serviço da rainha de Castela, aportou em terras ao ocidente que julgava ser a Índia, a disputa por pouco não se converteu numa guerra.
Chamaram o papa que, imitando Salomão, dividiu o mundo.
Portugueses e castelhanos, cada qual com sua parte, tornaram-se donos de todas as  ilhas e terras firmes, descobertas ou por descobrir, que não pertencessem a soberanos cristãos.
Em 1498 Vasco da Gama chegou à Índia. Era o sonho de quase um século realizado. Seu sucesso foi tão grande que o reino armou a maior de suas empreitadas.
Na manhã do dia 9 de março do ano da graça de 1500, aos pés das bandeiras da Ordem de Cristo, se ajoelharam o rei D. Manuel, o que teve a ventura de chegar às Índias, nobres, clérigos, financistas, mercadores, traficantes de escravos, cartógrafos, matemáticos e gente do mar. Nove grandes naus, três caravelas e um navio redondo se achavam prontas para navegar no mar imenso. Iam levar 1500 homens armados, a Bíblia, trezentos canhões e caixas e caixas de mercadorias. Esperavam trazê-las transbordadas de riquezas. Iam preparados para enfrentar o Samorim de Calecut ou quem se opusesse a seu destino.
Seu comandante Pedralvares, homem de estirpe, versado nas lides da guerra, trazia consigo homens e instruções de Vasco da Gama, candidato natural a fazer a viagem, preterido pelo rei.
Na volta grande para alcançar as Índias, perseguiu sinais de terra e chegou a num Porto Seguro em Abril de 1500.
Por mais que procurassem, não encontraram ouro, nem prata, nada de metal ou ferro, tampouco pimenta e panos de seda.
Deixaram uma cruz de madeira, pregos de cobre,criminosos degredados, doenças e pecados e retornaram ao mar aberto. Depois de violentas tempestades em que quatro embarcações e seus homens foram perdidos, no dia 2 de Maio chegaram à Índia.
O pequeno reino lusitano se tornava grande quanto o mundo.
Feito de sonhadores. Quaisquer que fossem seus sonhos, não se agarraram aos ferros do porto seguro, mas arvoraram as velas, desafiaram a procela, não temeram a morte.
Dia do Marinheiro
Com renovada alegria, a cada dia 13 de dezembro, festejamos o Dia do Marinheiro.
Neste dia, relembramos a figura do nosso patrono, Almirante Joaquim Marques Lisboa- Marquês de Tamandaré e celebramos o orgulho de servir à Marinha e ao Brasil.
As autoridades navais, na busca de uma data em que pudessem homenagear a cada um destes magníficos heróis do passado e do presente, escolheram a do nascimento do Velho Marinheiro, como ele mesmo escolheu ser chamado.
Não foi sem razão.
Joaquim Marquês Lisboa nasceu na cidade do Rio Grande, a 13 de dezembro de 1807. Com apenas 15 anos alistou-se como voluntário de praticante de piloto.
No dia 4 de maio de 1823, com portanto apenas 16 anos, tomava parte do combate contra a esquadra portuguesa na Bahia, durante a Guerra da Independência.
Tamandaré participou de todos os fatos significativos da História da Pátria, de 1823 a 1889 quando foi proclamada a República.
Lutou na Guerra da Cisplatina, na Campanha Oriental, na Guerra do Paraguai, na luta contra os Cabanos, Balaiada, Sabinada, Guerra dos Farrapos e Revolução Praieira.
Sempre a que a segurança da Pátria e a Integridade do seu território foram ameaçados, Joaquim Marques de Lisboa, esteve presente.
Sua vida e a História da Marinha Imperial estiveram intimamente entrelaçadas.
A  sua data natalícia foi escolhida como Dia do Marinheiro, dia em que a nação presta um merecido tributo aos seus filhos que dedicam sua vida a serviço da Pátria, a bordo dos nossos navios, escolas, hospitais e demais organizações de terra, num trabalho silencioso, quase nunca reconhecido pela sociedade, mas que cada um de nós têm certeza, ser indispensável à grandeza  e segurança do nosso querido país.
Talvez na antiga Creta, ilha onde a penúria do solo condenou os habitantes à vida no mar, nasceram os primeiros marinheiros. A necessidade de buscar mercados e mercadorias e para tanto, singrar os mares, levou os cretenses a construir uma grande esquadra para defender seus navios mercantes. Nela embarcados estavam homens que se especializaram na manobra e combate, daqueles pequenos navios, os nartoés, como os chamaram os gregos. Não lavravam o solo, compravam ou vendiam, guiavam as esquadras por mares desconhecidos, tomavam o rumo nas estrelas, conheciam os ventos, as correntes, venciam o medo com sua ousadia. 
A glória dos impérios do passado se fez com a conquista dos mares, feitos destes homens incriveis que desafiavam os elementos em busca do desconhecido.
As grandes vitórias e derrotas ocorreram nos oceanos.
Em Salamina os gregos venceram os poderosos espartanos. Na Batalha do Actium Roma se tornou um Império. Em Lepanto o Ocidente barrou o perigo Otomano. Na Batalha do Atlântico se decidiu a Segunda Guerra Mundial.
Nas águas do nosso litoral conquistamos a nossa liberdade.
Nos momentos decisivos a vitória no mar sagrou a vitória das nações e os ideais dos seus homens valorosos.
13 DE DEZEMBRO: DIA DO MARINHEIRO
Os navios da época dos descobrimentos.
                                                                                                                                    
Barca
Embarcação média, com velas latinas ou remos. Foi usada até a metade do século XV.
Barinel
Navio de maior tonelagem que a barca, empregado inicialmente na pesca, foi utilizado na exploração da costa da África. Tinha dois mastros, com vela redonda e eventualmente era impulsionado a remo.
Batel
Embarcação de pequeno porte, auxiliar de um navio. Transportava pessoas e cargas do navio/terra/navio.
Bergantin
Pequena embarcação a remo com 8 a 16 bancos de cada lado. Possuía velas latinas e era usado na exploração do litoral.
Caravela
Embarcação de origem moura, empregada na navegação de cabotagem pelos árabes, foi modificada pelos portugueses e se tornou o navio dos descobrimentos. Com elas se arriscaram Bartolomeu Dias, Colombo e Vasco da Gama nas longas travessias rumo ao desconhecido
Sua capacidade era de 50 a 150 tonéis (1 tonel equivaleria ao volume de 1 tonel de 6 palmos de comprimento e 4 palmos de diâmetro).Eram construídas com tábuas de carvalho e pinho. A maioria delas tinha dois mastros e eram equipadas com velas latinas (caravelas latinas), mas as caravelas de descobrir tinham até 4 mastros, dos quais três armados com velas latinas e um com vela redonda (caravelas oceânicas). Segundo o Almirante Justo Guedes, "o casco era muito afilado (...) permitia-lhe navegar com bolina muito apertada". Desenvolvia uma velocidade de 4 a 8 nós.
Fragata
Navio semelhante ao bergantin, mas de menor porte.
Galé
Navio a remo de grande porte, usado na guerra e no comércio. Tinha 24 bancos de cada lado com até 4 remadores em cada banco. Possuía dois ou três mastros. Tinha baixo bordo e era muito instável em mar alto.
Galeão
Grande navio de guerra com cerca de 550 tonéis, parecido com a nau. Era freqüentemente empregado na escolta de navios mercantes.
Galeota
Pequena galé com cerca de 40 remeiros.
Nau
Grande navio com capacidade de 100 a 1000 tonéis, de dois, três ou quatro conveses e até 800 tripulantes. Era empregado nas grandes viagens oceânicas para transportar mercadorias. Podia ser armada com cerca de quarenta peças de artilharia.
A expedição que chegou à Índia em 1498, comandada por Vasco da Gama, era formada por duas naus (São Gabriel e São Rafael) e uma caravela (Bérrio). A São Gabriel tinha um porte de 120 tonéis. Media cerca de 20 metros  de quilha e 32 metros fora a fora, tinha formas rotundas, castelos de proa e popa, dois mastros com velas redondas e um mastro com vela latina. A maioria das naus tinha quatro mastros e um porte de cerca de 1000 tonéis.
A nau portuguesa tinha geralmente duas cobertas. A primeira abrigava o porão de carga, os tonéis de aguada e paióis de mantimento e pólvora. Na segunda, à proa, estavam o alojamento do Comandante, o abrigo dos bombeiros e os camarotes do mestre e do piloto. Os demais membros da tripulação dormiam pela tolda e convés sem qualquer abrigo, expostos à chuva e ao vento.
Fontes:
BRITO, Adalberto da S. Textos de História Naval. Florianópolis: Editora Saint-Germain, 2003.
GUEDES, Max Justo. O descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha, 1998.

Algumas notícias sobre  viagem de Cristóvão Colombo.

Nas primeiras horas da manhã do dia 3 de agosto de 1492, três navios largaram do porto de Palos (Espanha).. No seu comando o misterioso Cristóvão Colombo, o descobridor do novo mundo.
O verdadeiro lugar de nascimento de Cristóvão Colombo tem sido investigado em numerosos trabalhos. Hoje são pouquíssimos os investigadores que apostam ter Colombo realmente nascido em Gênova. Para uns era castelhano, para outros português e muitos encontram elementos para afirmar que seria um cristão novo.
Colombo nunca escreveu em italiano . Escrevia em castelhano e muitas das suas anotações são em Latim, mas, há depoimentos de que costumava dirigir-se à tripulação na suposta língua materna.
Teria  propositadamente encoberto sua origem por temer a feroz perseguição aos judeus na Península Ibérica?

O descobridor da América nasceu entre 1447 e 1453 e partiu para  Oriente Eterno em 20 de maio de 1506, na cidade espanhola de Valadolid. 
Segundo a biografia escrita por Bartolomeo de Las Casas,  teria aos 25 anos de idade, chegado a nado às praias lusitanas, em meio a uma batalha naval. Em 1478, casou com uma portuguesa, Dona Felipa Moniz.
Enquanto permaneceu em Portugal parece que  tentou, sem sucesso, convencer às autoridades  a financiarem uma expedição que chegaria às Índias navegando para o ocidente (a el levante, por el poniente).
É necessário lembrar que desde 1415, os portugueses empreenderam numerosas expedições marítimas com o objetivo de arrebatar dos comerciantes árabes e venezianos o controle do comércio de seda, marfim, perfumes e  pimenta. Estes artigos, que tinham penetrado na Europa trazidos pelos Cruzados, tinham um amplo mercado.
Não obstante as formidáveis perspectivas de lucro, que o domínio do comércio com as Índias poderia propiciar, os portugueses que buscavam chegar à Ásia navegando para o Oriente, não se convenceram das teorias de esfericidade da terra propostas pelo navegador.

Em 1485, Colombo estava  em Castela, explicando as mesmas teorias e buscando apoio para sua empreitada.
Onde Colombo recebeu instrução suficiente para argumentar sobre suas teorias e arriscar-se a comandar uma expedição por mares desconhecidos em busca de uma terra da qual pouco se conhecia?
Segundo ele próprio, começara a sua vida no mar com 14 anos. Como um grumete, que não freqüentou academias reais ou um monastério. Como  adquiriu tantos conhecimentos de mapas, ciências e línguas?
Colombo partiu de Palos com três navios, dos quais duas a Niña, Pinta eram caravelas e uma nau, a Santa Maria, também chamada de La Gallega.
A Santa Maria tinha três mastros, dois armados com velas redondas e a mezena com vela triangular. Provavelmente media 18 metros de comprido por 12 de largura.
A  Pinta era comandada por Martin Alonso Pinzón , um velho marinheiro da Andaluzia, como quase todos os tripulantes da expedição.
A menor das três, a Niña tinha como comandante Vicente Yañes Pinzón, irmão de Martin. Era uma caravela latina que foi modificada, durante a viagem (nas ilhas Canárias), passando a ter velas quadradas.
A tripulação, formada em quase toda a sua totalidade por marinheiros experientes, era aparentemente, muito bem paga. Os mestres e pilotos receberam 2000 Maravedis por mês. Os marinheiros experimentados  ganharam 1000 Maravedis  e os grumetes 666 Maravedis.  É difícil saber o valor de 1 Maravedi, mas  1 Onça (28,349 g) de ouro podia ser comprada por 3000 Maravedis.

Graças a uma série de documentos que foram estudados por Alice Bache Gould e John Boyd Thacher (Apud FUSON,Robert. The Log of Christopher Columbus), sabemos os nomes de muitos dos tripulantes dos navios de Colombo.
Santa Maria:
Cristobal Colon (Cristóvão Colombo): capitão geral.
Juan de da Cosa: mestre.
Diego de Arana: mestre d´armas.
Pedro de Gutierrez: camareiro.
Rodrigo de Escobedo: secretário.
Rodrigo Sanchez: piloto.
Diego de Salcedo: servo de Colombo.
Luis de Torres: intérprete.
Antonio de Cuellar: carpinteiro.
Juan Sanchez: médico.
Pedro de Terreros: taifeiro.
Cristobal Caro: ourives.
Domingo Vizcaino: ferreiro.
Pero Nino: piloto.
Juan: servo.
Rodrigo Gallego: servo.
Diego Perez: pintor.
Outros tripulantes:
Rodrigo de Jerez,Alonso Chocero, Alonso Clavijo, Andres de Yruenes, Bartolome Biues, Bartolome de Torres, Bartolome Garcia, Chachu, Diego Bermudez, Domingo de Lequeitio, Gonzalo Franco, Jacomel Rico,
Juan de Jerez, Juan de la Placa, Juan Martines de Acoque, Juan de Medina, Juan de Moguer, Juan Ruiz de la Pena, Lope, Mestre Juan, Marin de Urtubia, Pedro Yzquierdo, Pedro de Lepe.
Pinta
Martin Alonso Pinzon: capitão.
Francisco Martin Pinzon: mestre.
Cristobal Garcia Xalmiento: piloto.
Cristobal Quintero: proprietário do navio.
Mestre Diego: cirurgião.
Garcia Hernandez: taifeiro.
Bernal: servo.
Outros tripulantes: Francisco Garcia Vallejo, Gomez Rascon, Juan Bermudez, Juan Quintero, Juan Rodriquez Bermejo, Pedro de Arcos, Alonso de Palos, Alvaro Perez, Anton Calabres, Diego Martin Pinzon, Fernando Mendes, Francisco Mendes, Gil Perez, Juan Quadrado, Juan Reynal, Juan Verde de Triana, Juan Vecano,
Pedro Tegero, Sancho de Rama.

Niña
Vincente Yanez Pinzon: capitão.
Juan Nino: proprietário do navio e piloto.
Sancho Ruiz: piloto.
Mestre Alonso: médico.
Miguel de Soria: servo.
Bartolome Roldan: aprendiz de piloto.
Alonso de Morales: carpinteiro.
Outros tripulantes:Andres de Huelva, Bartolome Garcia,Diego Lorenzo, Fernando de Triana, Garcia Alonso, Juan Arias, Juan Arraes, Juan Romero, Pedro de Soria, Pero Arraes, Pero Sanche, Rodrigo Monge e Francisco Nino.
Trecho do testamento do Almirante Joaquim Marques Lisboa, marquês de Tamandaré.

"Exijo que meu corpo seja vestido somente com camisa, ceroula e coberto com um lençol metido em um caixão forrado de baeta, tendo uma cruz na mesma fazenda branca, sobre ela colocada uma âncora verde que me ofereceu a Escola Naval em 13 de dezembro de 1892(...) Sobre o caixão não desejo que se coloque coroas, flores nem enfeites de qualquer espécie (...) Exijo que se não faça nem convites para o enterro de meus restos mortais que desejo sejam conduzidos de casa ao carro e deste à cova por meus irmãos em Jesus Cristo que hajam obtido o foro de cidadãos pela Lei de 13 de maio. Exijo mais, que meu corpo seja conduzido em carrocinha de última classe, enterrado em sepultura rasa até poder ser exumado, e meus ossos colocados com os de meus pais, irmãos e parentes no jazigo da família Marques Lisboa.  Como homenagem à Marinha, minha dileta carreira, em que tive a fortuna de servir à minha pátria e prestar alguns serviços à humanidade, peço que sobre a pedra que cobrir minha sepultura se escreva: Aqui jaz o velho marinheiro. Almirante Joaquim Marques Lisboa".
Palavras a um jovem aprendiz.





















Por tua vontade aqui estás.
Teu coração e razão te guiaram para dar este passo.
Queres ser um Marinheiro.
Se aqui chegas pensando em riqueza, afasta-te. Não ficarás rico servindo à Pátria. Teu soldo vai permitir que tenhas uma vida digna, possas constituir família, mas não acumular fortuna material. Tuas maiores recompensas serão a honra e a glória de ser Marinheiro.

Lembra-te que entregas tua vida à Marinha. Isto significa que ela deverá sempre estar em primeiro lugar. Terás de deixar tua casa, esposa e filhos, com bom ou mau tempo, sempre que ela de ti precisar e servi-la com toda a dedicação,  seja em terra, no conforto de um camarote ou num convés ou passadiço em meio  ao fogo do inimigo.
Não te esqueças que o Marinheiro é um homem do mar.
O trabalho é árduo e incessante.
O mar é de uma beleza sem par, mas de um furor incontrolável, mas quando passa a tempestade, tudo passa. Não há paisagem mais bela, maior encanto. O céu está no horizonte, no horizonte está o céu.

É preciso que deixes, em terra, algumas coisas e te prepares de todo o coração para aprender novos ensinamentos e começar uma nova vida.

A Marinha é um Templo da  Virtude, Honra, Camaradagem e Patriotismo que se sustenta nos pilares da Disciplina e Hierarquia.

A disciplina não é um fardo, mas uma virtude necessária em todos os momentos de nossa vida cotidiana. É primordial na caserna, onde deve haver regra, ordem, momento e lugar para cada coisa.
A Hierarquia não é um instrumento autoritário ou de submissão, mas uma forma de organização, cujos degraus são alçados pelo mérito, alcançado com estudo, dedicação e competência.
Se nos obriga à obediência, nos permite dividir o peso da responsabilidade, de sorte que cada um de nós possa cuidar com total empenho do nosso compartimento, sabendo que todos os outros estarão com o mesmo empenho guardados.
Em breve, muito em breve, tereis outros homens  sob vosso comando.
Havereis de cuidar deles com lealdade, espelhados no exemplo dos vossos chefes.
Sabemos que por esta mesma doutrina se guiam os superiores. Desta maneira estamos certos que as suas decisões (como a nossas) são sempre as mais sábias e acertadas nas circunstâncias e momento em que foram tomadas e que são ditadas, não pela vaidade ou interesses pessoais, mas para garantir a segurança e o sucesso das missões que nos foram designadas, tendo sempre em vista bem servir à Pátria e à Marinha.
 
O sentido da Honra deve estar presente em todos os momentos de nossa vida. Mesmo que ninguém nos olhe,saiba,veja. Deve estar em nossas mentes como o sangue em nossas veias.
Um Marinheiro tem honra. Jamais engana, mente, trapaceia. Se cometer alguma falta procura seu superior para acusar-se. Não usa de meios ilícitos. Cumpre seus compromissos, em especial os financeiros.
Trata a todos com urbanidade, respeito e cortesia.
É um bom camarada, um amigo sempre pronto a estender a mão, mas nunca para acobertar os erros.

Um soldado está sempre pronto para a guerra.
Cuida do seu corpo, da sua saúde.
Participa, estuda, exercita, aproveita cada momento de cada instrução pois dela vai precisar e dela poderá depender a sua sobrevivência e de seus companheiros.
Espelha-se nos bons exemplos, dos modelos de virtude e profissionalismo.
Deseja ardentemente a paz, mas quando for chamado está pronto para o combate. Este é o sentido da vida que escolheu.
Não espera recompensas, láureas, mas a alegria interior que resulta do dever cumprido, de tudo ter feito para a grandeza desta instituição maravilhosa que um dia em sua juventude resolveu abraçar e pela Pátria que jurou com honra defender, mesmo com o sacrifício da própria vida.

(Prof. Adalberto Brito)
"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: navegar é preciso; viver não é preciso.
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para casar com quem eu sou: Viver não é necessário, o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la eu penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade, ainda que para isso tenha de a perder como minha."
Fernando Pessoa.
 
 
Dezembro na História

3.12.1864- O Vice-Almirante Joaquim Marques Lisboa tomando posição no Porto de Paissandu  com as Canhoneiras Araguari, Parnaíba, Belmonte Recife, resolveu atacar a praça, mesmo antes da chegada do Exército Imperial.
4.12.1864- As forças do Exército Imperial chegam a Paissandu, unindo-se aos soldados uruguaios que sitiavam o lugar.
6.12.1864- Primeiro ataque à cidade de Paissandu pela força uruguaia e 400 praças da Marinha Imperial.
8.12.1822- João Antônio de Oliveira Botas, no barco Pedro I, escoltando 18 embarcações com mantimentos destinados aos brasileiros que lutavam contra os portugueses na Bahia, enfrenta o fogo da esquadrilha lusitana composta dos brigues Audaz e Prontidão, escuna Emília e alguns lanchões.
8.12.1866- São lançados ao mar, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, os monitores Pará, Rio Grande, Alagoas, Piaui e Ceará, mandados construir para a campanha contra o Paraguai.
9.12.1821- Aporta no Rio de Janeiro o bergantin de guerra Infante Dom Sebastião, trazendo o decreto das Cortes que ordenava a volta de D. Pedro (Principe Regente) a Portugal.
10.12.1825- Manifesto do Governo do Brasil esclarecendo os motivos que levaram o nosso país a declarar guerra às Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina).
10.12.1854- Parte do Rio de Janeiro, com alguns navios, o Chefe-de-Divisão Pedro Ferreira de Oliveira, encarregado de ir ao Paraguai fazer reclamações e exigências ao governo daquele país, entre as quais a livre navegação nos rios Paraguai e Paraná.
13.12.1807- Nasce na cidade de Rio Grande Joaquim Marques Lisboa o futuro Almirante Marquês de Tamandaré.
14.12.1864- Parte de Assunção a esquadra paraguaia que irá invadir a Província de Mato Grosso (Brasil).
17.12.1851- Passagem de Tonelero.
19.12.1868- Os encouraçados Silvado e Lima Barros atravessam as baterias paraguaias de Angostura para buscar mantimentos destinados à tropa do Exército Nacional acampado em território tomado ao inimigo.
21.12.1825- O Vice- Almirante Rodrigo José Ferreira Lobo declara bloqueados os portos uruguaios e argentinos.
22.12.1866- O Almirante Visconde de Tamandaré enmtrega o Comando-em-Chefe da Esquadra em operações contra o governo do Paraguai, ao Vice-Almirante Joaquim José Inácio (Visconde de Inhaúma).
25.12.1864- A flotilha paraguaia que conduzia o exército invasor fundeia abaixo do Forte Coimbra (Mato Grosso).
26.12.1872- Toma assento no Senado, representando a Província de Santa Catarina, o Almirante Barão de Laguna.
27.12.1864- Começa o ataque paraguaio ao Forte Coimbra.
29.12.1862- O ministro inglês William D. Christie ordena ao Almirante Warren que comece a fazer represálias ao comércio marítimo do Brasil em virtude de não terem sido atendidas as satisfações exigidas pelo naufrágio da barca Prince of Walles e pela prisão, na Tijuca (Rio de Janeiro), de três oficiais britânicos.
30.12.1822- Decreto do governo brasileiro permite o corso contra os navios portugueses e propriedades públicas ou particulares de Portugal.
Fonte: PALHA, José Egydio Garcez. Efemérides Navais. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1983.